Fugindo um pouco do tema, foco do blog, vou colocar uma crônica feita por uma amiga do meu tio, sobre meu avô.
Segue a crônica:
Seu Apolônio, homem de raiz
No dia de sua morte contava com 87 anos. Morrera de Acidente cardiovascular, o segundo. Foi bom assim. Vaidoso, não queria dar trabalho aos filhos nem a quem quer que fosse. Os vizinhos, num misto de ignorância e sentimento de perda se sentiam intrigados com uma chuva que seu Apolônio tomara naquele dia. Onde já se viu homem tão velho se expor a tanta água, num lugar árido, quente e seco. Só podia mesmo adoecer!
No seu velório, o que é típico do interior, houve uma grande convergência, parentes, amigos vizinhos. Uma festa. Seu Apolônio era homem querido. Dos mais miúdos aos mais velhos havia vinculo, afeto, atenção. Mas sua vida era cheia de rupturas e decisões que o levara a solidão. Vivia num quartinho na rua em que sempre morou. Mesmo tendo oito filhos, uma mulher vivinha. Gostava mesmo era das andanças e dos namoros proibidos. Se para tanto precisasse morar sozinho, era coisa pequena, melhor mesmo o sossego, a solidão, a liberdade.
A família toda havia se mudado para a capital. Ele ate tentou por um tempo, mas aquela vida não tinha cabimento para um homem de raiz como ele. Voltou sozinho, deixando a família à sorte de uma urbanidade inteiramente inadequada a sua personalidade. Voltou para sua bicicleta, para as ruas que conhecia pelo cheiro, pelo tato. Saiu no automático, a pedalar, sabia de cada pedra, de toda casa e, o fundamental, era conhecido de todos. A vizinhança já sentia falta de seu Apolônio, quando ele voltou. No inicio se ignorou a ausência da família, mas logo se acostumaram. Seu Apolônio fazia parte da fotografia e sem ele no passeio a imagem parecia se deteriorar. Tinha também as mulheres, muitas, de todas as idades que seu Apolônio gostava. Homem ”enxerido”, como se diz no lugar. Pouca coisa a se dizer de alguém que viveu tantas décadas. Era mesmo simples, previsível.
Seu velório ajuntou gente de todo credo, aquela diversidade de vínculos, de gerações. Seus filhos vieram da capital e lá lembravam tantas coisas. Foi como se um repente fosse acontecendo. Um repente diferente, cheio de imagens, como filme. Cenas de infância, brincadeiras ingênuas, sem tecnologia ou violência, marcadas pela criatividade emergente da escassez. Tudo acontecendo sob a anuência do finado.
Seu Apolônio, ali. Só corpo. Bonito, Sereno. Corado. Parecia vivo, como desejava que fosse. Queria morrer com boa aparência. Assim foi. Seu Apolônio, homem de Raiz. Deixou um quarto vazio.
Estelizabel Beserra
Cidade das acácias, 26 abril, 2009, lua nova.
Bom, esse era meu avô, que Deus o tenha. Enfim vai matar as saudades, as grandes saudades que ele tinha de minha mãe, que sempre me abraçava, chorava, sempre que falava comigo no telefone chorava. Pouco tempo antes de fazer sua viagem, conheceu sua primeira bisneta, filha do seu primeiro neto (eu), e já ensinou a andar, pois andar deu os primeiros passinhos pro seu bisavô. Infelizmente, por n motivos não pude ir dar o último adeus em seu funeral, mas no final das contas penso que tenha sido melhor, a última imagem que tenho dele é aqui, sentado na cadeira brincando com minha filha.
Vai com Deus vovô, minha mãe, entre outros que já se foram, estão esperando de braços abertos.